quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A CORAGEM DO AMOR QUE DURA

      Faz alguns dias que eu me escondi nos afazeres rotineiros para não ter que encarar minhas memórias.Sem inspiração para escrever um texto novo, encontrei esse aqui que resume perfeitamente o que penso a respeito do amor. Boa leitura!!!



    Quando amo, consigo olhar o mundo por duas janelas que não se confundem, a minha e a do ser amado.
A literatura e o cinema, em geral, glorificam a coragem de quem, um belo dia, chuta o balde e vai embora.
       E como ficam os que passam a vida inteira deslocando o balde para estancar as goteiras? Será que eles são todos covardes e acomodados?
       É inegável: nossa cultura idealiza a ruptura, a aventura, a saída para o mar aberto. Em matéria amorosa, o momento que preferimos contar é a hora do apaixonamento.
      Depois disso, gostamos de imaginar que “eles viveram felizes para sempre”, mas sem entrar em detalhes que poderiam transformar a história numa farsa.
       Uma boa solução, aliás, é que os amantes morram logo. O sumiço (de ambos ou de um dos dois) evita que a comédia da vida que levariam juntos contamine a apoteose do encontro inicial. Os amantes ideais são os que não duraram no tempo: Romeu e Julieta, o jovem Werther e Charlotte, Tristão e Isolda.
Concluir o quê? Que a coragem é sempre a de quem deixa a mornidão de seu conforto para se queimar num instante de paixão? Será que não pode haver coragem nos esforços para que o amor dure?
É óbvio que a duração não é um valor em si: uma relação pode durar a vida inteira e ser uma longa e insulsa experiência repetitiva, sem amor algum. Mas, inversamente, será que as paixões-relâmpago são amores?    Enfim, seria útil dispor de uma definição do amor.
         Justamente, li nestes dias um livro que me tocou, “Éloge de l’Amour” (elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês.
           Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de “heroísmo da fusão” dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes).
Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é “uma construção”.
Confesso que fiquei com medo de que o filósofo nos propusesse amores tagarelas, em que os amantes não parariam de discutir a relação (claro, para construí-la). Por sorte, não se trata disso. Então, o que constroem os amantes?
           Geralmente, explica Badiou, minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela.Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses.
       Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela.
Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz.   Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego.
         O amor segundo Badiou, em suma, é uma aventura, mas que precisa ser obstinada: “Abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor. Um amor verdadeiro é o que triunfa duravelmente, às vezes duramente, dos obstáculos que o espaço, o mundo e o tempo lhe propõem”.
         Você aprecia a definição, mas a acha um pouco abstrata? Gostaria da história de um amor que dura e se obstina sem se tornar pesadelo ou farsa? Pois bem, acabo de ler um texto comovedor, bonito e capaz de ilustrar e explicar perfeitamente as palavras de Badiou.
         Em “Amar o Que É: Um Casamento Transformado” (Objetiva), Alix Kates Shulman conta como ela e Scott, o marido, reinventaram o mundo, a dois, obstinadamente, depois de um acidente que precipitou Scott numa forma de demência.
           Há momentos difíceis, sacrifícios e durezas, mas, curiosamente, o relato não chega nunca a ser triste porque se trata de uma extraordinária história de amor.
CONTARDO CALLIGARIS
Folha de SP, 27/05/2010.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

RECOMEÇAR

Encontrei esse belo texto e pensei em postá-lo em homenagem a todos aqueles que pretendem começar um ano deixando para trás os pesos que carregou na alma até hoje.Beijos e boa leitura!!!



Não importa onde você parou,
em que momento da vida você cansou,
o que importa é que sempre é possível
e necessário "Recomeçar".

Recomeçar é dar uma nova
chance a si mesmo.
É renovar as esperanças na vida
e o mais importante:
acreditar em você de novo.

Sofreu muito nesse período?
Foi aprendizado.

Chorou muito?
Foi limpeza da alma.

Ficou com raiva das pessoas?
Foi para perdoá-las um dia.

Sentiu-se só por diversas vezes?
É por que fechaste a porta até para os outros.

Acreditou que tudo estava perdido?
Era o início da tua melhora.

Pois é!
Agora é hora de iniciar,
de pensar na luz,
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo arrojado, diferente?
Um novo curso,
ou aquele velho desejo de apender a pintar,
desenhar,
dominar o computador,
ou qualquer outra coisa?

Olha quanto desafio.
Quanta coisa nova nesse mundão
de meu Deus te esperando.

Tá se sentindo sozinho?
Besteira!
Tem tanta gente que você afastou
com o seu "período de isolamento",
tem tanta gente esperando apenas um
sorriso teu para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza nem
nós mesmos nos suportamos.
Ficamos horríveis.
O mau humor vai comendo nosso fígado,
até a boca ficar amarga.

Recomeçar!
Hoje é um bom dia para começar
novos desafios.

Onde você quer chegar?
Ir alto.
Sonhe alto,
queira o melhor do melhor,
queira coisas boas para a vida.
pensamentos assim trazem para nós
aquilo que desejamos.

Se pensarmos pequeno,
coisas pequenas teremos.

Já se desejarmos fortemente o melhor
e principalmente lutarmos pelo melhor,
o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da Faxina Mental.
Joga fora tudo que te prende ao passado,
ao mundinho de coisas tristes,
fotos,
peças de roupa,
papel de bala,
ingressos de cinema,
bilhetes de viagens,
e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados.
Jogue tudo fora.
Mas, principalmente,
esvazie seu coração.
Fique pronto para a vida,
para um novo amor.

Lembre-se somos apaixonáveis,
somos sempre capazes de amar
muitas e muitas vezes.
Afinal de contas,
nós somos o "Amor".


 Paulo Roberto Gaefke

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A ESPERA

ESPERA.Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, ao sabor dos mais ínfimos atrasos(encontros, telefonemas, cartas, retornos).


       A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer.A espera de um telefonema se tece assim de pequeníssimas interdições, ao infinito, até o  inconfessável: não me permito sair do cômodo, ir ao banheiro, nem mesmo telefonar(para não ocupar o aparelho); sofro quando me telefonam(pela mesma razão); "Estarei enamorado? -Claro que sim, já que espero". O outro, este nunca espera.Às vezes, quero bancar aquele que não espera; tento me ocupar com outra coisa, chegar atrasado, mas nesse jogo, sempre perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso, pontual, adianado mesmo.A identidade fatal do amante nada mais é que: sou aquele que espera.
(Na trasferência, espera-se sempre-na sala do médico, do professor, do analista.Mais do que isso:se espero num guichê de banco.Podemos dizer que, em toda parte onde há espera, há transferência: dependo de uma presença que se divide e que demora a se dar-como se se tratasse de arrefecer meu desejo, de alquebrar minha necessidade.Fazer esperar: prerrogativa constante de todo poder, "passatempo milenar da humanidade".


Belo texto de Roland Barthes sobre  espera. Pode ser encontrado em Fragmentos de um discurso  amoroso. Bjos!!!

AUSÊNCIA

       Hoje acordei com tanta vontade de gritar de saudade, querendo colo, carinho, aconchego. Afago de amigo, aliás tenho sentido muita falta desses amores que nos faze suportar as dores do mundo e lembrei desse poema tão lindo: 



A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

domingo, 26 de dezembro de 2010

CHEIRO DE ALFAZEMA


Último domingo do ano, dia para refletir, repensar e rememorar. Ana dormia tranquilamente após almoçar com seus pais na casa que passara toda a infância. O sentimento de nostalgia invadia seu coração, época natalina, tempo propício para celebrar, mas também para  renovar os laços de amor e amizade. Fazia meses que ela e Ricardo não conversavam, embora ela nutrisse um carinho infindável por ele, que representava sensibilidade e mistério. Enfim, ela jamais imaginara que, motivado pelo espírito natalino, o amigo a procuraria naquele dia.
Embalada pelo clima ameno ela descansava após uma maratona intensa de troca de afetos, presentes e votos de felicidade. O telefone tocara algumas vezes e ela, cansada, sonolenta, imaginara que alguém havia combinado com o destino de atrapalhar seu sono e envolvida pelo torpor resolveu não atender, pois o número já estava registrado e tão logo acordasse de seus son(h) o retornaria a ligação.
Ao acordar, descobriu que o autor daquele telefonema, a princípio inoportuno, era Ricardo seu companheiro querido dos tempos de escola. O número registrado carregava consigo todas as lembranças de outrora, os implícitos, os silêncios, as trocas de olhares, as conversas de corredor e, sobretudo, trazia à mente o frescor da alfazema.
Avidamente Ana retornou a ligação e imaginando que o amigo atenderia prontamente, decepcionou-se. Pensou que fosse engano, que talvez ele quisesse telefonar para outra que também se chamava Ana, afinal de contas era um nome tão comum. Voltou aos afazeres diários que a maternidade exigia e horas depois, ao perceber que o amigo retornara a ligação, finalmente venceu o medo e telefonou para ele. Nesse momento foi envolvida pelo calor da alfazema, conversaram durante alguns minutos e era como se nunca houvessem rompido a relação de amizade.

Ambos conversaram sobre amenidades, sobre a convivência de outrora e felicitaram-se pelo ano que estava prestes a iniciar, falaram sobre a importância de se camuflar para sobreviver em sociedade e Ana descobriu que conhecia quase nada do amigo, uma vez que ele se protegera durante os anos em que estiveram juntos.  
Ricardo, prudentemente, desligara o telefone desejando que a amiga fosse muito feliz e realizasse todos os desejos que guardasse no íntimo, mal sabia que o maior anseio de Ana era que ele se mostrasse por inteiro e permitisse que o cheiro de alfazema afastasse do peito tudo aquilo que ficou por vir.

“Não cantarei o mar: que ele se vingue de meu silêncio nesta concha”.




Nome científico: Lavandula angustifolia – (outras espécies: Lavandula spica, Lavandula vera, Lavandula officinalis, Lavandula angustifolia.)
Nomes populares: Alfazema, Lavanda, Lavandula, Nardo.
A lavanda é sedativa e equilibradora, digestiva, anti-reumática e antiinflamatória, anti-séptica, cicatrizante, relaxante, redutora da fadiga, sedativa, balsâmica.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A propósito de botas

   Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. (...) Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rápido, inefável e incoercível momento de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupação, a um incômodo... Daqui inferi eu que a vida é o mais engenhoso dos fenômenos, porque só aguça a fome, com o fim de deparar a ocasião de comer, e não inventou os calos, senão porque eles aperfeiçoam a felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas”.

    Ao ouvir "Pés Cansados" hoje enquanto dirigia lembrei da minha caminhada em direção a você, pensei nos  caminhos paralelos que permeiam nossa estrada e nos rumos diferentes que seguimos , embora eu só tenha aprendido a te seguir .Caminhei insistentemente buscando novos rumos,mas me perdi, descobri que essas estradas eram miragens e que no final de tudo só você era real, por isso estou aqui!!!!

"Depois te tanto caminhar
depois de quase desistir
os mesmos pés cansados voltam para você

Meus pés cansados de lutar
Meus pés cansados de fugir
Os mesmos pés cansados voltam para você".